A ordem do universo que estamos deixando para as gerações futuras

Passando pela praça da cidade (moro no interior) onde há alguns balanços, escorregador, gangorra… e vi um garoto num balanço parado. Eu perguntei se estava bem, pois um menino sobre um balanço parado, com certeza, tem problemas. E ele me disse: é que o balanço não quer funcionar comigo! Com os outros meninos ele funcionou, agora ele parou, deve ter acabado a pilha e eu não sei como trocar. Gente, eu achei que era brincadeira do garoto. Então disse pra ele, olha, balanços não têm motor e nem pilha; a pilha do balanço são os impulsos que você fará e o motor é você mesmo. Então dei um belo empurrão no balanço e disse, agora quando o balanço estiver indo para trás você faz força para trás; e quando ele estiver vindo para frente, você impulsiona para frente. Assim o brinquedo fará o movimento que você determinar. Se você fizer o movimento para o lado ele obedecerá, experimente… Assim ele o fez… E disse: Nossa Senhora, ele obedece mesmo! Parecia que tinha descoberto um novo continente. Então, balançando-o novamente perguntei, você usa muito o computador? E ele com um sorriso que ia de “orelha a orelha” apenas me confirmou com um gesto de cabeça que sim. Então eu pensei comigo… Que lembranças essas crianças de hoje terão de sua infância? Que ordem louca existe no universo hoje?

E aí voltei para casa e fiquei com vontade de recordar a minha infância…

Esta foto ilustra bem o nosso cotidiano. Corríamos pelas ruas de terra do bairro, sem calçados nos pés. As casas quase não tinham cercas ou muros, e todos respeitavam os limites. Essa era a ordem do universo: conhecer os limites e respeitá-los.

Rose e Ana brincando de "Nacional Kid"

As brincadeiras eram de roda, de pegar, de esconder, de bola-queimada, de futebol no campinho, de bola de gude, de pular-carniça, de balanço (balanço de corda mesmo), de passar anel, de pular corda, de soltar pipa… a gente corria, de cansar não por estar sendo ordenado por algum professor, corríamos pois queríamos correr pra brincar… trepávamos em árvores pra pegar frutas e pra brincar… brincávamos na chuva, no barro, nos barrancos, no sol, no vento… nenhuma sensação é melhor do que sentir o suor salgado escorrendo pelo rosto, vermelho e quente de tanto rir, sendo refrescado pelo vento. Criança ou estava na escola ou estava na rua, brincando, não havia crianças em casa quietas, sentadas ou deitadas. Crianças brincando e estudando era a ordem do universo.

As árvores frutíferas que existiam pelos quintais eram de todo mundo (sim árvores frutíferas pois eram as únicas úteis – pés de abacate, de goiabas das vermelhas e das brancas, de mangas, de mexericas, de laranjas, de bananas, de mamão, de jabuticaba, de ameixa, de caqui, de carambola… – era raro ver árvores que não dessem frutas); bastava pedir ao dono da casa uma fruta e os vizinhos diziam: Pode pegar “fio”, aproveita e pega umas pra mim também. As crianças imitavam os adultos pois os admiravam. Pedir por favor, cumprimentar, respeitar os mais velhos, pedir bênção, agradecer, fazer a sua parte e ajudar o próximo eram ordens do universo. 

A gente comia doce quase todos os dias, pois sempre tinha alguém que fazia e dividia com os vizinhos… doce de cidra, de mamão verde, de abóbora. Quem plantava? Alguma alma generosa que pegou as sementes da sua abóbora e semeou no mato, o pé ficava lá no terreno que não tinha casa e todo mundo se servia das abóboras. Quem ia colher não trazia só a sua, trazia as maduras para quem quisesse. Tudo era repartido e era de todo mundo. Os pés de juá, os pés de erva-doce, de erva cidreira, de limão; quando havia fartura ou era época da Páscoa todos repartiam suas galinhas, coelhos, frangos, jacús, leitões ou porcos, patos, perus, galinhas d’angola, cabritos, carneiros uns com os outros. Ovos eram colhidos nos ninhos das galinhas no quintal. Mandioca tinha aos montes. Os chuchus “davam” em qualquer cerca. Maxixe dava rasteiro em qualquer terreno e inhame também.  Todos repartiam com todos e dividir o alimento era a ordem do universo.

As hortas dava gosto de ver, quase todo mundo tinha horta em casa, as verduras vinham da horta direto pra mesa… O leite era entregue de carroça, o leiteiro trazia o leite direto da chácara e colocava o leite nos latões que ficavam na porta de casa… e a gente pagava por ano… pegava-se leite o ano todo e no final do ano havia o acerto de contas. O pão também era colocado numa tábua, um tipo de aparador na porta de casa, embrulhado em um papel jornal tão grosso que parecia uma lona. Também se pagava por ano o pão consumido. A confiança era a ordem do universo e ninguém dava calote, todos honravam seus compromissos.

Ladrões ou presos? Deus nos livre, era raríssimo ouvir dizer que alguém da comunidade havia se envolvido com a polícia, que dirá alguém da família. Ser ladrão então? Nossa eu não me lembro de ter ouvido dizer que na comunidade houvesse algum ladrão até os meus 16/17 anos. E hoje? Quantas pessoas conhecidas das crianças de hoje que já se envolveram com polícia, já foram presas, foram envolvidas com crimes, com drogas? Ser correto, honesto e não se envolver com coisas erradas era a ordem do universo, e todos se esmeravam nisso.

Criança doente ia para a benzedeira ou vinha em casa o boticário (farmacêutico) que trazia aquelas seringas de vidro gigantescas. Era um ritual torturante vê-lo ferver no fogão da nossa casa mesmo, em um tipo de marmitinha retangular prateada as agulhas e a seringa imensas que iriam furar nossos entes queridos, e o farmacêutico mesmo nos medicava, e ninguém morria… A doença mais comum era o resfriado, a tosse comprida (que se dizia tosse de cachorro […]) e o mal de simioto… a cura do mal de simioto? Leite de égua, ovos de pata e bife de fígado. A comida era feita com banha de porco, e bolinho doce frito era o café da tarde de quase todos os dias. Bicho de pé era comum e ninguém ficava aleijado por isso. Vez por outra era obrigação das boas mães darem para as crianças Calcigenol, óleo de fígado de bacalhau chamada de Emulsão Scoth (argh quanto disso eu tomei, ecaaa) e Biotônico Fontoura. Para verminose era semente de abóbora torrada ou semente de linhaça. Para descontrair, olha só os banhos como eram:

Rose tomando banho no tanque.

Foto que meu pai Udilo Paulo Campana tirou. Nessa época eu tinha uns dois anos. O detalhe da outra boca do tanque repleto de roupas lavadas, repousando no anil para depois ir para o varal.

Parece que estou falando de um outro planeta ou de outro plano… mas estou falando do mesmo mundo em que vivemos hoje e isso não faz tanto tempo assim.

Todo o nosso universo estava em ordem e no lugar, não havia nada fora do lugar… Adulto era adulto, criança era criança. Adulto trabalhava e criança brincava e estudava. Pássaros voavam pelo céu e faziam seus ninhos nas árvores, e todos respeitavam, ninguém mexia. A gente via maritacas, pardais, sanhaços, beija-flor, tico-tico, curruíla, tizius que ficavam nos pés de mamona… papagaios, rolinhas, pássaros pretos, choupim, canários, todos voando soltos pelo céu. A liberdade e o respeito eram as ordens do universo.

Acho que a minha geração foi a geração que mais pôde ser criança e conhecer a melhor ordem universal que já existiu e que está em extinção. É só analisarmos: a geração dos nossos pais, quando crianças, trabalhava na lavoura acompanhando seus familiares, criança trabalhava de sol a sol não tinham tempo para brincar; a geração dos nossos avós (quando crianças) também eram de lavradores e a de nossos bisavós também, e as crianças trabalhavam como os adultos, a força da família era a quantidade de pessoas trabalhando e isso incluía as crianças. E eles que tanto trabalharam quando crianças nos permitiram a ordem universal da minha geração que era como um paraíso… E a fome existia? Fome não, dificuldades sim! Não sobrava e ninguém jogava fora, mas todos participavam, colaborando com o que tinham. Ninguém fazia cobranças, essa era a ordem universal, pois todos se esmeravam para colaborar em seu máximo com tudo e a comunidade era uma grande família, essa era a grande ordem universal.

Tenho sérias preocupações com as gerações futuras e com a ordem universal que estamos deixando de herança para eles.

Sobre RoseCampanaMurari

Sou casada, tenho 4 filhos, sou crocheteira, sou artesã, sou dona-de-casa, maestrina, digitadora e apaixonada por aprender. Amo fazer coisas novas e ensinar o que eu sei.
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